sexta-feira, 2 de maio de 2008

Palas, jabás e colarinhos

Taí uma palinha do que será meu livro sobre o Vasco, “A CRUZ DO BACALHAU”, que sairá em breve, na Coleção Camisa 13, pela Geração / Ediouro.

TCHAU, ROMÁRIO. VAI COM DEUS E AS PULGAS...

Bom, ele não é propriamente um exemplo. Seu carisma, em cavalares doses suburbanas, mistura-se com algumas atitudes mercenárias, golpes não muito limpos para conseguir aos 1.000 gols (jogou até contra canguru e golfinho de beques); lesões irresponsáveis - e até suspeitas antes de alguns jogos decisivos - quando era tranqüilamente visto, até na véspera dos embates, em animadas partidas de futivolei nas praias e festas diversas, com direito à bebida, cachorras e porrada. Dizem até que negociou pessoalmente com bandidos, onde era bem-chegado, no rapto de seu pai. Não, ele não é santo, muito menos do pau oco. Fez coisas maldosas, como colocar o rosto dos desafetos na entrada dos banheiros de seu bar, bateu boca com meio mundo, e acertou alguns tirambaços lá onde a coruja dorme, como por exemplo a debochada declaração:
- O Pelé, calado, é um Poeta...
Teve a ousadia de não ver sucessor pra seu poder de fogo, ao passo que Pelé apontou, anos atrás Owen, uma espécie de Sávio em inglês, como herdeiro de sua coroa. Talvez perseguido pelas palavras do Rei, Owen jamais rendeu o esperado e hoje tem atuações medíocres num time mediano.
O fato é que Romário foi um dos mais perigosos atacantes do futebol mundial, justamente apelidado de “dono da Área”, capaz de “levar” zagueiros, numa jinga característica que o consagraria no mundo todo, apelidada pelos espanhóis, por seu movimento, de “Rabo-de-vaca”, e que geralmente terminava em gol. O Romário que lembro é o do Vasco, o da Seleção Brasileira (foi o responsável pelo Tetra, APESAR DE PARREIRA E ZAGALO), o do PSV, o do Barcelona. Ignoro o Romário de outros times, inclusive o do Valência. Se o grande Otelo Caçador tinha o direito de conferir sempre, no placar moral das partidas, as vitórias ao seu time, ainda que perdesse de goleada, edito minhas memórias de Romário como bem quiser.
Se não fosse a forra mesquinha de Zagalo – que custou o ouro aos brasileiros – não o levando às Olimpíadas, já teríamos esse título, o único que falta à Seleção canarinho.
Para mim, Romário parou cedo. Bastava colocá-lo num canto da área, confortavelmente instalado numa cadeira de praia, isopor bem fornido de bebidas ao lado e um monte de cachorras seminuas, deitadas de bruços em cangas, ao redor dele. Atrás do gol, as Ferraris. Aparvalhados, os defensores adversários abririam os tais espaços para penetração de outros atacantes e bola no filó. Romário parou porque Edimal, o Animundo voltou? Duvido. Foi desentendimento com o Eurico? Parece que não. Jornalistas que conheço, e que entendem das finanças do clube, me garantem que se o Baixinho cobrar o que o Vasco lhe deve, lhe entregam de papel passado todo o patrimônio cruzmaltino.
Falando sério, mesmo de mau-humor, é preciso tirar o chapéu para um avante que foi artilheiro pelo Vasco (87/ 88), três vezes consecutivas artilheiro holandês pelo PSV e duas vezes artilheiro na Copa da Holanda, cinco títulos acumulados, entre 81 e 91, estrela da constelação do Barcelona, em 94, não lembro bem o que aconteceu depois, e novamente artilheiro pelo Vasco em 2000, no campeonato estadual, e por aí afora.
Apesar dos cabelos grisalhos e da tonsura de padreco, foi artilheiro, pelo Vasco, do Brasileirão em 2001 e 2005, embora seja preciso dizer, em nome da justiça, que Romário não é, como muitos pensam, o maior goleador do campeonato Brasileiro. Esse galardão pertence a Roberto Dinamite, também do Vasco, com nada menos que 190 gols.
Há torcedores – como eu – que não perdoam Romário por um fato pouco citado: ele mandou a torcida do Vasco calar a boca, vestindo a camisa de outro time. Quando voltou ao Vasco, numa acachapante vitória de 5 x 1, dirigiu-se à ex-torcida, ameaçou o gesto de “Chiuuu!” e amarelou. Cada um que faça seu julgamento. A bronca é livre. Pra mim, isso não tem perdão.
Nos dias de hoje, quando o Vasco repete atuações medíocres, o torcedor delira com um novo baixinho que seja capaz de fazer, com toques sutis, os gols da virada.
Em todo caso, para não parecer mesquinho, um ramalhete de sempre-vivas para celebrar a eternidade de Romário, mesmo porque ele não é flor que se cheire.





BRASILEIRINHOS
Lê-se diariamente nos jornais as novas/velhas mortes de brasileiros pelo Dengue, e nós descarregamos nossa raiva num inseto que apenas cumpre seu ciclo vital, ao invés de responsabilizar os políticos corruptos, os parlamentares que embolsam o mensalão, os ilustres reitores que estouram verbas e cartões corporativos com decoração sofisticada e/ou farras no exterior – quando não desviam verbas, de um lado e do outro, para se manterem no Poder.
Nesse quadro trágico, sofremos especialmente pelas crianças mortas, pelas vidas ceifadas em flor, graças ao descaramento das autoridades. As crianças mortas pelo Dengue substituíram, momentaneamente, outras assassinadas por meninos soldados do tráfico. E fico pensando se não há relação entre esse verdadeiro morticínio e dados recentes publicados nos jornais: Cerca de 300 mil crianças exercem trabalhos de semi-escravidão no Brasil. Quando aqui se fala em 300 mil, vocês podem tranqüilamente botar 1 milhão na conta. São as que se intoxicam nas carvoarias clandestinas; que trabalham com ferramentas rudimentares e perdem os dedos nas madeiras para fazer – por ironia – lápis; ou aquelas também mutiladas pelo agave, ou sisal, cujo produto final vira peças artesanais, vendidas aqui e lá fora. Entre essa legião de menores escravos há um grande número não revelado de mortos. Lembro que, na década de 80, um bandido foi caçado implacavelmente e morto: era um garoto, apelidado de Brasileirinho. Dá saudade do tempo em que brasileirinho era só um choro do Waldyr Azevedo. Logo depois, outra quadrilha de garotos aprontou, botou banca, comprou roupas de griffé, subiu na laje e, como se brincasse num São João, mandou uma saraivada de balas traçantes sobre a cidade. Pouco tempo depois, estavam todos mortos. Muito mais por vingança do que por justiça. E agora surgem estatísticas alarmantes: a cada 10 horas, uma criança é assassinada. O Ministério da Saúde relata: nos últimos 6 anos, 5.049 mortes de crianças até 14 anos.
Tudo isso nos faz esquecer a jovem que ficou paraplégica, baleada no pátio da faculdade ou a outra, assassinada nas escadas do metrô, ou o garoto arrastado pelas ruas até ficar em pedaços, no carro roubado também por “garotos”.
Cheguei a pensar numa situação surreal em que as estamparias recusariam rostos de crianças mortas em camisetas, porque a procura é maior que a oferta. A morte da vez é a da menina Isabela, atirada pela janela numa covardia tenebrosa.
Pensando em nossa consciência, tá lá, mais uma vez, o corpo da infância brasileira estendida no chão.






Faço questão de dividir com nossos leitores o e-mail que recebi, do meu primo Nei Lopes, sobre a produção musical no Brasil.

CARTA DO PARANÁ 
Toque o Brasil!



Nós, músicos e produtores fonográficos, advogados, jornalistas, comunicadores e emissoras públicas de todo o Brasil, reunidos em Curitiba, nos dias 11 a 13 de abril de 2008, sob convocação da ABMI (Associação Brasileira de Música Independente), AMAR (Associação dos Músicos, Arranjadores e Regentes), UBC (União Brasileira de Compositores) e Governo do Paraná, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e da Rádio e Televisão Educativa do Paraná, refletimos sobre a atual situação da música independente brasileira e afirmamos a manutenção do termo Produção Independente como fator de diferenciação em relação à produção massificada.
Entendemos que o cenário musical brasileiro atravessa um momento esplendoroso e pujante da criação e produção musicais. No entanto, sofremos há tempo com a prática de mercado que domina o setor.
Preocupa-nos a falta de políticas públicas de fortalecimento do setor musical, relegado a uma ditadura de mercado, que define uma estética própria, de qualidade e gosto que julgamos duvidosos, baseada na obtenção do maior lucro pelo menor custo de produção, imposta de forma homogênea para todo o Brasil. Trata-se de um modelo nocivo aos interesses nacionais, que reduz a difusão da produção musical genuinamente brasileira, ignorando inclusive nossas riquezas regionais.
Entre tantos dados exaustivamente analisados, destacamos um exemplo desse descaso com a cultura nacional: durante o ano de 2007, as quatro gravadoras multinacionais que operam no Brasil produziram no nosso país pouco mais de meia centena de títulos. No mesmo período, apenas 63 gravadoras nacionais independentes colocaram no mercado 784 títulos novos.
De modo inversamente proporcional, a produção de música independente nacional ocupou apenas 9,82% do espaço de veiculação musical, contra 87,37%, na programação das rádios comerciais de todo o País.
Trata-se da imposição de um modelo de dominação cultural e monopolização do mercado da música que leva ao empobrecimento da cultura brasileira. Por meio da redução da pluralidade e diversidade de estilos e gêneros registra-se um rebaixamento da música, assim como de toda produção cultural nacional, a simples produtos descartáveis, exatamente num país reconhecido mundialmente pela exuberância de seu tesouro musical.
Para democratizar o acesso à música profissional de qualidade, garantindo o desenvolvimento da cultura nacional em base à cidadania, à ética e ao respeito aos valores mais nobres de uma sociedade, convocamos as autoridades brasileiras e a sociedade de um modo geral a refletir e apoiar os seguintes encaminhamentos:

AOS GOVERNANTES:
1. Repudiar e combater como crime a prática do “jabá” (veiculação musical paga aos meios de comunicação) como um ato lesivo à cultura nacional.
2. Desenvolver um mecanismo de aquisição pública da produção independente de música brasileira, para uso nas bibliotecas, acervos e escolas públicas como forma de desenvolver e estimular a educação musical do povo brasileiro.
3. Pelo mesmo motivo, reimplantar e desenvolver a educação musical nas escolas de todo o país, como disciplina do currículo.
4. Criar uma política de Estado em defesa dos acervos das editoras musicais brasileiras, através do IPHAN, para impedir a absorção dos catálogos nacionais por grupos estrangeiros.
5. Assumir a defesa intransigente da lei dos direitos autorais.
6. Exigir que os órgãos públicos só possam veicular anúncio publicitário, campanha pública ou outra forma de veiculação que possibilite o repasse de recursos públicos em emissoras que estejam em dia com suas obrigações legais com relação aos direitos autorais.
7. Condicionar a manutenção e renovação das concessões públicas ao fiel cumprimento da legislação, particularmente no que diz respeito ao recolhimento de direitos autorais.
8. Criar mecanismos que garantam a diversidade e regionalidade na veiculação de toda a produção musical brasileira nos meios de comunicação em geral, de acordo com os artigos 221 e 222 da Constituição Brasileira.

AOS ARTISTAS E À SOCIEDADE BRASILEIRA
1. Criar um banco de dados sonoros, em suporte digital, sistematizando um repertório nacional de música independente, destinado à sua difusão especialmente para as emissoras das redes públicas de comunicação.
2. Apoiar a PEC 98/2007, em tramitação no Congresso Nacional, que cria a imunidade tributária para a música brasileira, como forma de reconhecimento do seu papel educativo da identidade cultural brasileira, assim como já é feito com a produção editorial.
3. Apoiar a criação, fortalecimento e expansão em sinal aberto dos sistemas público e estatal de comunicação, como forma de garantir a democracia informativa no país, e cobrar que tais emissoras se comprometam a ser agentes da difusão da cultura nacional, respeitando e valorizando a cultura regional.
4. Manifestar apoio ao ECAD, condenando toda campanha iniciada como forma de enfraquecer esta organização, conquista dos artistas brasileiros, e ao mesmo tempo contribuir para que a instituição amplie e aperfeiçoe seus mecanismos de transparência e eficiência.

Para dar continuidade aos temas tratados neste encontro, incluindo a propositura de projetos em parceria com a RTVE/PR e demais emissoras públicas, os presentes decidiram manter esta forma de organização e, para isso, formaram um grupo de trabalho, composto por representantes das entidades organizadoras deste primeiro encontro - ABMI, AMAR, UBC e RTVE/PR - e da ARPUB (Associação das Rádios Públicas Brasileiras).





Do nosso Milton Hatoum, ao infelizmente falecido Edward W. Said, o livro “Porca do Sol”, de Elias Khoury, lançamento da Record, é considerado uma obra prima da literatura árabe contemporânea. De fato. Trata-se de um livro que raramente se lê. Agora, não cometam o erro de pegar “Porta do Sol” para relaxar num fim-de-semana. É um livro que se lê chorando.





No mais, é como diria o rubronegro Ronaldo Fenômeno: “Não tem cu, vai cu mesmo”.

2 comentários:

Douglas Germano disse...

Aldir,

O "Jabá", modernizou-se e tem nova categoria:

"Jabaculegenda" em cartaz todos os domingos em qualquer telinha.

Abraço,

rosa pena disse...

" São as que se intoxicam nas carvoarias clandestinas; que trabalham com ferramentas rudimentares e perdem os dedos nas madeiras para fazer – por ironia – lápis; "....e muitos jamais poderão ter aqueles coloridos pra pintar aquela casinha, aquele sol , aquele desenho tão rudimentar, mas tão lindo que as crianças fazem com tanto orgulho.. beijo..rosa